PF acha com assessora ligada a Lira planilhas com emendas de deputados

A Polícia Federal (PF) apreendeu na operação Transparência, realizada em dezembro de 2025, dezenas de planilhas com dados sobre emendas parlamentares de deputados federais em um endereço de Mariângela Fialek, a Tuca.

A advogada ficou conhecida em Brasília por ter sido braço direito de Arthur Lira (PP-AL) na gestão do chamado orçamento secreto, entre 2021 e 2022, quando o parlamentar ocupou a Presidência da Câmara dos Deputados.

A casa de Tuca e seu gabinete na presidência da Câmara foram alvos de busca da PF, após ordem do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino. Além de documentos, os investigadores encontraram um computador antigo em que estava a maioria das planilhas com os registros de emendas.

As planilhas estão sob análise desde a apreensão. Um dos objetivos é descobrir se os arquivos são os registros das emendas de relator — ou o orçamento secreto.

Outro lado: procurada pela coluna, a defesa de Tuca não retornou. A assessoria de Lira optou por não se manifestar.

R$ 20 bilhões sem transparência

Proibido pelo STF em 2022, o orçamento secreto (por meio das emendas RP9) aumentou o poder do Congresso sobre a destinação de verbas federais e foi responsável por R$ 45 bilhões empenhados pelo governo entre 2020 e 2022, na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Desse total, cerca de R$ 20 bilhões foram pagos sem transparência, com a omissão dos parlamentares responsáveis pelas indicações das emendas.

Na prática, a falta de transparência impedia a PF, por exemplo, de saber qual deputado destinou verba para uma obra sob suspeita de corrupção.

Com as emendas RP9, também não era possível mensurar quanto cada deputado destinava em emendas.

Um dos objetivos da análise realizada pela PF nas planilhas encontradas com Tuca é apurar se os registros são relacionados às indicações dos parlamentares, para mostrar como a divisão do orçamento era feita a partir dos interesses de Lira e de outras lideranças políticas.

Tuca é investigado sob a suspeita de ser a responsável, diz a PF, pelo “controle e organização do chamado orçamento secreto na sua primeira modalidade, qual seja, através da chamada emenda de relator”.

“Estamos falando em uma atuação longeva na organização desses recursos, que remonta à época da pandemia e coincide com o mandato de Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados”, disse a PF, ao pedir busca nos endereços de Tuca.

De Lira para Motta?

A operação Transparência investiga se a ex-assessora de Arthur Lira continuou a atuar como gestora do orçamento secreto na gestão de Hugo Motta (Republicanos-PB) na Presidência da Câmara dos Deputados.

A investigação teve início após os depoimentos do senador Cleitinho (Republicanos-MG), da deputada Adriana Ventura (Novo-SP) e dos deputados Glauber Braga (PSOL-RJ), José Rocha (União Brasil-BA), Fernando Marangoni (União Brasil-SP) e Dr. Francisco (PT-PI).

No ano passado, os parlamentares depuseram sobre um possível desvio de emendas de comissão por Tuca.

As emendas de comissão, de acordo com a apuração da PF, são a nova versão do orçamento secreto após a proibição das RP9.

Outro lado: procurada pela coluna, a assessoria de Motta optou por não se manifestar.

O que é orçamento secreto?

O orçamento secreto é como ficaram conhecidas as emendas de relator, identificadas pela sigla RP9 — criadas em 2019 por meio do Projeto de Lei do Congresso Nacional número 51.

O mecanismo de distribuição de verbas foi utilizado pelo governo Jair Bolsonaro, em troca de apoio em votações no Congresso, e deu mais poder aos parlamentares sobre o orçamento do governo federal.

Esse tipo de emenda parlamentar foi utilizado até 2022, quando o STF proibiu a distribuição de emendas sem transparência. As principais críticas ocorreram:

pela impossibilidade de identificar os deputados ou senadores responsáveis pela indicação;

por permitir uma distribuição desigual entre parlamentares.

Mesmo com a decisão, o Congresso manteve algumas emendas sem transparência, entre elas as de bancada (quando a banca do partido pode indicar) e as de comissão (quando integrantes de uma comissão fazem as indicações).

A manutenção das emendas resultou em atritos do STF, em especial do ministro Flávio Dino, com o Legislativo. Além disso, a falta de transparência e o aumento da fatia das emendas no orçamento federal resultaram em diversos casos de corrupção em contratos custeados com esse tipo de verba.

Foto: Reprodução/LinkedIn

D1 com Uol

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