Ameaças de Trump travam comércio bilateral dos EUA pelo mundo e abrem espaço à China

Especialistas preveem que as ameaças do presidente americano, Donald Trump, de usar outras maneiras de continuar a taxar os países devem levar a mais ineficiência, menos investimento e a um aumento da participação da China no comércio global.

  • Taxa de 15% alivia exportadores do Brasil, que temem novas tarifas após investigação
  • Nova tarifa global de Trump entra em vigor nos EUA, após decisão da Suprema Corte

Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados, a situação gera muita instabilidade. Especialistas explicam que mesmo a nova tarifa — que seria de 15% segundo promessa de Trump feita no sábado, mas entrou em vigor nesta terça-feira com alíquota de 10% como inicialmente anunciado — pode ser questionada judicialmente, como foi a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, pela sigla em inglês).

A nova tarifa tem por base a Seção 122 da Lei de Comércio de 1974. A Casa Branca trabalha numa nova ordem executiva para elevar a taxa a 15%, segundo a Bloomberg.

Além disso, Trump ameaçou usar outras medidas como a Seção 301 que alcança outras questões como barreiras não tarifárias e propriedade intelectual, que não tem teto de alíquota, enquanto a 122 é limitada a 15%. Nas redes sociais, ele voltou a criticar a Suprema Corte dos Estados Unidos, que na sexta-feira determinou que a IEEPA não poderia ter sido usada para estabelecer as chamadas tarifas recíprocas globais, em abril do ano passado.

— Trump tem ameaçado usar a 301 e a 232, com mais tarifas específicas. Isso gera instabilidade, e uma das consequências é que a China está ganhando espaço no comércio internacional, e os países estão tentando fechar mais acordos bilaterais para tentar diminuir a dependência do mercado americano — afirma Barral.

Tarifas de importação — Foto: Criação O Globo
Tarifas de importação — Foto: Criação O Globo

Avanço da China

A incerteza é tão grande que o economista-chefe para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, considera que “o longo prazo é o pôr do sol de hoje”. Para o analista, que calculou em 13% a tarifa média brasileira atualmente, a busca de novos parceiros, que é uma constante no comércio internacional, ganhou “sentido de urgência”:

— Uma cadeia verticalmente integrada, com peças da Índia, outra da China, em um equipamento que é montado no Brasil, que tem de mudar deixa o processo ineficiente. É um custo mudar esses canais de distribuição e suprimento.

Ramos observa ainda que alguns países, como o México, perderão competitividade frente à China no mercado americano.

Segundo Barral, a fatia da China nas exportações globais cresceu de 13% em 2016 para aproximadamente 15-16% em 2024-2026. No ano passado, mesmo com a guerra comercial — Pequim chegou a amargar tarifas superiores a 100% —, as exportações chinesas ainda cresceram 6,1%.

A dúvida persiste também sobre os acordos comerciais que foram fechados pelos Estados Unidos com União Europeia (EU), Reino Unido, Japão e outros. Os países, lembra Ramos, negociaram quando havia competidores com taxações menores, portanto, valia a pena negociar. Agora, essa situação mudou, já que a taxação é a mesma para todos.

— Nenhum país vai dizer, agora, que não vai obedecer o acordo, mas eles podem prorrogar mais a efetivação, tentar renegociar algum ponto. Mas ninguém vai querer enfrentar a ira de Trump — afirma Barral.

A advogada Ana Caetano, sócia da área de comércio exterior da Veirano Advogados, lembra que os acordos demoram a ser efetivados, principalmente no caso da UE, que depende da ratificação dos membros. Ela diz que os países agora “não têm a mínima pressa para fechar esses acordos”:

— Vão arrastar o pé para implementar, ratificar, não há mais pressa para que isso aconteça. Boicotar esses acordos pode acontecer de várias formas, arrastando o pé.

Ela diz que a UE se abriu muito para a importação de produtos americanos, com uma contrapartida menor, em troca de mais previsibilidade, mas agora essa estabilidade nas regras se perdeu:

— Acabou a motivação econômica para correr.

Já Trump, pelas redes sociais, afirmou ontem que qualquer país que quiser “jogar” com a decisão da Suprema Corte americana enfrentará uma tarifa muito mais alta.

“Qualquer país que queira ‘jogar’ com a decisão ridícula da Suprema Corte, especialmente aqueles que vêm ‘explorando’ os EUA há anos — e até décadas — enfrentará uma tarifa muito mais alta, e algo ainda pior, do que aquela com a qual concordou recentemente. COMPRADOR, CUIDADO!!! Obrigado pela atenção”, escreveu o presidente americano na rede social.

Post do presidente americano Donald Trump no Truth Social ameaça parceiros comerciais — Foto: Reprodução da internet
Post do presidente americano Donald Trump no Truth Social ameaça parceiros comerciais — Foto: Reprodução da internet

Em outra postagem, Trump afirmou que, como presidente, não precisaria voltar ao Congresso para obter aprovação de tarifas. “Essa aprovação já foi concedida, de muitas formas, há muito tempo! Elas também foram recentemente reafirmadas pela decisão ridícula e mal elaborada da Suprema Corte!”

Mais cedo, Trump postou que a Suprema Corte dos EUA “’acidental e inadvertidamente” já havia lhe dado, como presidente dos Estados Unidos, muito mais poderes e força do que ele tinha antes da decisão de sexta-feira passada.

“A suprema corte (usarei letras minúsculas por um tempo, com base em uma total falta de respeito!) dos Estados Unidos acidental e inadvertidamente me deu, como Presidente dos Estados Unidos, muito mais poderes e força do que eu tinha antes de sua decisão ridícula, estúpida e muito divisiva.” Ele disse que pode fazer “coisas absolutamente ‘terríveis’ a países estrangeiros, especialmente aqueles países que vêm NOS EXPLORANDO há muitas décadas, mas, de forma incompreensível, segundo a decisão, não posso cobrar deles uma taxa de Licença — MAS TODAS AS LICENÇAS COBRAM TAXAS, por que os Estados Unidos não podem fazê-lo? Você emite uma licença para cobrar uma taxa!”

Países começam a reagir

Representantes do governo Trump afirmaram que a decisão da Suprema Corte não afetará os acordos comerciais já negociados. Em entrevista ao programa Face the Nation, da CBS, no domingo, o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, afirmou queesses acordos — firmados com UE, Japão, Coreia do Sul e Reino Unido, entre outros — permanecem em vigor. E disse esperar que os outros países também os mantenham.

— Os países que assinaram acordos com os EUA e aceitaram uma tarifa acima de 15% agora estão em desvantagem — disse ao New York Times o CEO da consultoria Apac Advisors, Steven Okun. — Você renegocia e adota uma postura mais dura, já que a capacidade de pressão de Trump diminuiu? Ou mantém o que já tem para evitar retaliações?

As reações já começaram. A China pediu ontem ao governo americano o cancelamento das tarifas unilaterais anunciadas em 2025. A Comissão Europeia, braço executivo da UE, exigiu que os EUA cumpram os termos do acordo e ameaçou congelar a aprovação do tratado no Parlamento. A UE teme perder isenções para produtos exportados para os EUA, que foram obtidas no acordo fechado com a Casa Branca.

A Índia, por sua vez, adiou os planos de enviar uma delegação comercial a Washington esta semana.

Foto: Al Drago/Bloomberg

D1 com O Globo

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