A China afirmou que está avaliando a possibilidade de conversas comerciais com os EUA, o primeiro sinal desde o início do tarifaço de Donald Trump de que negociações podem começar entre os dois lados.
O Ministério do Comércio da China disse, em um comunicado divulgado nesta sexta-feira, que observou autoridades americanas de alto escalão expressarem repetidamente sua disposição de conversar com Pequim sobre as tarifas, e instou as autoridades em Washington a demonstrarem “sinceridade” em relação à China.
“Os EUA enviaram recentemente mensagens à China por meio de partes relevantes, na esperança de iniciar conversas com a China”, acrescentou o ministério. “A China está atualmente avaliando isso.”
A declaração sinaliza que o impasse entre as duas maiores economias do mundo pode mudar, após Trump elevar as tarifas dos EUA ao maior nível em um século e Pequim retaliar na mesma moeda.
O presidente americano afirmou repetidamente que o presidente Xi Jinping precisa contatá-lo para que as negociações tarifárias comecem. No início desta semana, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que cabe a Pequim dar o primeiro passo para reduzir a tensão no conflito.
Efeito sobre a economia
John Gong, ex-consultor do Ministério do Comércio da China e professor na Universidade de Negócios e Economia Internacional de Pequim, comparou o gesto mais recente à “primeira chuva após uma longa seca”. Segundo ele, isso sugere “que há um sinal verde vindo do topo da liderança na China”.
— Eles estão se preparando para a negociação, quem vai liderar, qual será a estratégia, qual o modelo para lidar com Washington. Tudo isso está provavelmente sendo intensamente debatido e discutido neste momento — afirmou à Bloomberg Television.
Os impactos econômicos do confronto podem estar dando novo impulso aos esforços para levar ambos os lados à mesa de negociações. A economia dos EUA contraiu no início do ano, na maioria devido a uma onda monumental de importações para se antecipar às tarifas, o que abalou os mercados financeiros globais e derrubou a confiança dos consumidores.
Na China, a atividade industrial entrou na pior contração desde dezembro de 2023, segundo o índice oficial de gerentes de compras divulgado esta semana. Os novos pedidos de exportação caíram ao nível mais baixo desde dezembro de 2022 e registraram a maior queda desde abril daquele ano, quando Xangai entrou em lockdown total devido à pandemia.
Nomeação de pessoa-chave
Mas ainda existem obstáculos. Pequim espera que os EUA nomeiem uma pessoa-chave para as conversas, com o apoio de Trump, para preparar um acordo que o presidente americano e o líder chinês possam assinar quando se encontrarem.
Enquanto países como Índia e Japão buscam seus próprios acordos com os EUA, a China corre o risco de se ver cada vez mais isolada como a única grande economia que não lançou uma campanha para firmar um acordo.
— O alto nível de tarifas recíprocas sobre a China não é sustentável, então o mercado espera que os EUA e a China comecem a negociar em algum momento — disse Woei Chen Ho, economista do United Overseas Bank.
Ele completou:
— O início das negociações provavelmente trará nova volatilidade ao mercado, porque não se espera que seja um processo tranquilo.
Uma reestruturação surpresa anunciada por Trump na quinta-feira pode complicar as relações bilaterais ao expandir a função do Secretário de Estado Marco Rubio, o primeiro a ocupar o cargo depois de ter sido sancionado por Pequim. O presidente dos EUA anunciou que Rubio atuará como conselheiro de segurança nacional interino, além de manter o cargo de secretário de Estado. Michael Waltz, atual conselheiro de segurança nacional, será indicado para ser o próximo embaixador dos EUA nas Nações Unidas.
A função dupla atribuída a Rubio ampliará sua voz em questões sensíveis para Pequim, como Taiwan — uma ilha democrática autônoma que a China considera parte de seu território. O principal diplomata dos EUA já prometeu abordar as “ações desestabilizadoras” de Pequim no Mar do Sul da China.
Em entrevista ao apresentador Sean Hannity, da Fox News, transmitida na noite de quinta-feira, Rubio disse que a China está buscando um “acordo de curto prazo” com os EUA e afirmou que as tarifas estão tendo um enorme impacto sobre sua economia. “Os chineses estão fazendo contato,” disse Rubio. “Eles querem se encontrar, querem conversar.”
Representantes da Casa Branca, do Escritório do Representante de Comércio dos EUA e dos departamentos do Tesouro e do Comércio não responderam imediatamente aos pedidos de comentário.
D1 com O Globo