Vídeos gravados pela Justiça Federal e obtidos pela coluna mostram um ex-colaborador da 13ª Vara Federal de Curitiba dizendo, diante de uma juíza, que ele atuava não como delator, mas como “informante” do ex-juiz e hoje senador Sergio Moro (União Brasil-PR).
Na gravação, ele afirma ainda que tinha, como delator, autonomia para pedir que pessoas de interesse da investigação fossem grampeadas pelo então juiz.
A cena se soma a uma série de acusações de abuso e negligência da Justiça Federal local em relação à atuação de Moro.
O senador é alvo de apuração no Supremo Tribunal Federal por, supostamente, ter usado delatores para alcançar alvos que, juridicamente, estariam fora do alcance dele na Justiça Federal. O ex-juiz tornou-se parlamentar em 2023.
A coluna aguarda manifestação de Moro. Da última vez em que foi procurado para falar sobre o assunto, o ex-juiz e hoje senador afirmou que “a investigação em curso no Supremo Tribunal Federal é baseada em relatos fantasiosos do criminoso condenado Tony Garcia. A colaboração deste criminoso com o Ministério Público e a Justiça Federal remonta aos anos de 2004 e 2005, tendo então se encerrado. Não é possível comentar qualquer material do inquérito, já que não tive acesso aos autos”.
Nas gravações obtidas pela coluna, o ex-deputado estadual Tony Garcia fala com a juíza Gabriela Hardt, que sucedeu Moro na 13ª Vara, e denuncia o que considera abusos diante de sua atuação.
Ele diz, nas gravações da Justiça, que foi chamado a assinar um acordo para entregar um suposto esquema de venda de sentenças judiciais.
Com o tempo, doutora Gabriela [Hardt], eu fui agente infiltrado do Ministério Público. Eu trabalhei por dois anos e meio diuturnamente, por 24 horas, tendo um agente da inteligência da Polícia Federal ao meu dispor, para eu pedir segurança e interceptação telefônica que colaborasse com a Justiça.
Ex-deputado estadual Tony Garcia
Ainda segundo o ex-delator, Moro o chamava frequentemente para debater os rumos do caso e pedia que ele buscasse possíveis delatores.
O ex-deputado diz ter usado o telefone da 13ª Vara para contatar alguns dos alvos. “Inclusive, uma das pessoas-chave desse inquérito eu levei para o acordo. Eu pedi para ele não ser preso. E ele foi lá e falou tudo. Que tinha conta fora e tal.”
Como a coluna já mostrou, Moro é investigado no Supremo por ter, como juiz, usado a estrutura da Justiça Federal do Paraná para coagir autoridades e políticos. Ao reagir à reportagem, o ex-juiz acusou a colunista de agir com partidarismo e prometeu processo.
Em reportagem anterior, a coluna mostrou que Moro não só autorizou como solicitou e recebeu o grampo do ex-presidente do Tribunal de Contas do Paraná das mãos de Tony Garcia.
“Jornalista publica ‘furo’ no UOL de que eu teria, em 2005, grampeado ilegalmente o ex-presidente do TCE/PR. Primeiro, não é furo, a mesma jornalista havia dado idêntica matéria em 2023. Segundo, o fato ocorreu em 2005, há 20 anos, quando um criminoso colaborador, ladrão de consórcios, se dispôs a gravar seus interlocutores suspeitos de variados crimes em investigações derivadas do caso Banestado. O entendimento do STF na época era que a gravação feita pelo próprio interlocutor não demandava autorização judicial. Então um conselheiro do TCE foi gravado e é só, tudo com registro nos autos. Foi a única autoridade de foro então gravada e o áudio não foi utilizado para nada. Essa colaboração findou em 2005, sem qualquer relação com a Lava Jato. Estranhamente, esses factoides são ressuscitados no momento em que é revelado que Lulinha está sendo investigado pela PF por suspeita de envolvimento no escândalo do roubo do INSS. Estou na CPMI do INSS e defenderei, independentemente de intimidação ou de factoides, que o fato seja investigado”, postou Moro na ocasião.
Veja o vídeo:
D1 com Uol