Técnico de time da Índia aparece como sócio de empresa que obteve empréstimo de R$ 468,8 milhões do Master: ‘Não faço ideia’

Um técnico espanhol de um time indiano de futebol aparece como sócio de uma empresa que tomou um empréstimo de R$ 468,8 milhões do Banco Master e, logo depois, investiu valores semelhantes em um fundo administrado pela Reag. O treinador, porém, nega ter uma firma no Brasil.

As investigações do Ministério Público Federal (MPF) apontam que o Master concedia empréstimos para empresas que, na sequência, repassavam quase todo o valor a fundos administrados pela Reag compostos por investimentos em papéis de baixo valor.

Uma delas é a BMQ Mirage, registrada em São Paulo como atacadista de produtos alimentícios. A empresa, com capital social de R$ 900 mil, recebeu R$ 468,8 milhões e, em seguida, aportou R$ 444 milhões em um fundo ligado à Reag que tinha em sua carteira de investimentos papéis considerados sem valor do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc).

A BMQ Mirage tem como sócio o espanhol Juan Pedro Benali Hammou, técnico do NorthEast United, clube da Super League indiana. Ele nega ter uma empresa no Brasil e disse desconhecer pessoas relacionadas ao negócio.

Na ficha cadastral da empresa consta que Juan Pedro é espanhol, o que ele confirma, e que mora em Abu Dhabi. O técnico diz já ter residido nos Emirados Árabes Unidos. Além disso, consta um CPF registrado em seu nome, com a data de nascimento correta, mas ele diz desconhecer o documento.

— Sou um treinador de futebol. Não faço ideia de uma empresa no Brasil. Só conheço pessoas ligadas ao futebol — disse.

Nos dados da empresa, consta que o contador João Fernando Machado de Miranda foi procurador do técnico de futebol em 2012, na época da constituição da firma. Procurado, Miranda afirmou que deixou a empresa em 2013, conforme registros.

Disse ainda que atuou com o aporte enviado por Juan Pedro, de R$ 500 mil, e que chegou a ter contato com ele na época. A empresa, segundo ele, foi fundada para atuar com cana de açúcar, mas o negócio não deu certo.

Daniel Vorcaro é dono do Banco Master

O CEO do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso nesta terça (18) pela PF — Foto: Ana Paula Paiva/Valor
O banqueiro foi preso pela Polícia Federal na noite de segunda-feira (17)

O GLOBO obteve a procuração e questionou o técnico espanhol sobre o documento. Juan Pedro reconheceu que a assinatura é sua e se mostrou surpreso:

— Como eles conseguiram a minha assinatura? Estou ficando com medo.

O contrato de crédito da empresa junto ao Master, obtido pelo GLOBO junto a pessoas a par das investigações, foi firmado em junho de 2024 e inclui uma cláusula que prevê que ao menos 90% do empréstimo deve ser depositado no fundo da Reag.

O advogado Pedro Jaguaribe, que defende a empresa, afirmou inicialmente que o empréstimo com Master foi liquidado. Depois, disse que a operação não se concretizou e o contrato foi desfeito. Sobre o aporte no fundo administrado pela Reag, ele classificou como uma “questão contábil” e disse que não houve investimento de fato, o que confirma a linha de investigação do Ministério Público Federal.

Questionado sobre a participação do técnico espanhol no negócio, o advogado explicou que ele é um sócio investidor estrangeiro e se disse surpreso com o fato de Juan Pedro ter negado ser sócio.

— Desconheço, até porque a gente está sempre falando com o Juan Pedro — disse.

Caminho do dinheiro

De acordo com as investigações da Compliance Zero, o Banco Master concedia empréstimos a empresas que, posteriormente, reaplicavam recursos em fundos de investimento da Reag.

O caminho do dinheiro mostra que milhões de reais eram transferidos de um fundo a outro por meio de uma série de transações-relâmpago em um curto período. Os fundos eram compostos por papéis de baixa liquidez.

Ao longo dessa cadeia de transações, os títulos presentes nos fundos passavam por reavaliação, o que resultava em um valor inflado, muito superior ao seu preço de fato. Em uma das transações investigadas, revelada pelo GLOBO, issoresultou em valorização de 10.502.205%, um percentual que não encontra respaldo em qualquer parâmetro de mercado.

No fim, os recursos voltavam ao Master por meio da compra de CDBs (um título de investimento).

Foto: Reprodução / TV Globo

D1 com O Globo

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