Vivi para contar: ‘Quero que todos os homens mencionados nos arquivos de Epstein sejam levados à Justiça’, diz brasileira que sobreviveu aos abusos

Eu não queria mais ter nada a ver com o mundo de Jeffrey Epstein. Minha decisão de quebrar o silêncio sobre os abusos que vivi nasceu no memorial de Virginia Giuffre [advogada, que denunciou a rede de tráfico sexual de Epstein em 2015]. Nesse dia, ao lado de outras sobreviventes, entendi que ela lutou por nós durante anos. Meus advogados então me disseram que, se eu contasse a minha história, poderia ajudar na liberação dos arquivos pela Justiça americana. Mas a minha motivação maior foi minha filha. Ela tem 12 anos e está a um ou dois anos da idade que eu tinha quando fui abusada por Epstein. Não quero que ela nem nenhuma outra menina passe pelo que passei. Quando falei pela primeira vez sobre os abusos, em setembro do ano passado, eu precisava dizer que não importam a vergonha e o medo. Não importa o que as pessoas vão dizer ou no que vão acreditar. O que importa é você e a sua história. Essa é a minha história.

Eu tinha 7 anos quando minha mãe decidiu que viríamos para os EUA. Nós morávamos em Belo Horizonte, tínhamos uma família grande e eu me sentia amada. Meu pai vivia no Rio, mas era presente. Os dois tinham uma boa relação, pelo que me lembro. Como toda menina, eu só queria ficar com a minha mãe, não importava se fosse na Alemanha, em Marte ou em Nova York, onde fomos morar.

Em Astoria, no Queens, minha mãe arranjou um namorado. Ela trabalhava à noite, e meu padrasto começou a me colocar no colo, com o meu rosto coberto por um pano, talvez um lençol, enquanto assistia a pornô. E começou a fazer coisas comigo. Eu não entendia o que estava acontecendo, não sabia o que era um abuso sexual. Eu tinha 8 anos.

Lembro dos gritos quando minha mãe o flagrou. De ela me dizer que não aconteceria mais. Só que aconteceu até os meus 12 anos. A cada vez que eu reclamava, ela discutia com ele, o que o tornou mais violento. Minha mãe dizia que não podia denunciá-lo porque estávamos ilegais nos Estados Unidos. Eu tinha medo que me tirassem dela. Todo mundo, da minha escola à comunidade de Astoria, sabia o que estava acontecendo. Ninguém nunca fez nada. Até que uma mulher que alugava um quarto na nossa casa me disse que sabia e foi comigo à delegacia.

A polícia não acreditou em mim. Disseram que eu estava mentindo, que tinha ciúmes da minha irmã mais nova, que meu padrasto ficaria anos preso. Em algum momento, ele foi preso, mas só por seis meses. Eu e minha mãe fomos trabalhar em uma empresa de catering no Brooklyn, e foi aí que ela começou a me culpar. Eu tive que me virar como uma adulta aos 14 anos e nos sustentar, e me meti com más companhias. Contei tudo isso porque foi assim que parei na casa de Jeffrey Epstein em Manhattan.

Fotos de Trump e Clinton

Uma amiga, que não era uma boa amiga, me falou que um cara rico, que conhecia muita gente, queria uma menina para fazer massagem. Disse que ele era cool, só queria me ver perto. Ela sabia que eu tinha sido abusada pelo meu padrasto e que eu precisava de dinheiro. Epstein pagava US$ 300, o que na época era muita grana pra gente.

Eu nunca tinha visto uma casa como aquela. Portas enormes, uma empregada que nos levou ao escritório dele, onde havia fotos de gente importante: Trump, Clinton, príncipe Andrew. Eu fiquei nervosa como se fica diante de alguém assim. Ele se apresentou: “Oi, meu nome é Jeffrey e ouvi coisas ótimas sobre você.” Fiz a massagem, ele quis saber mais sobre mim, parecia um cara legal até que pediu que eu tirasse o sutiã.

Eu não fiquei confortável. Aquela casa, o fato de que outras pessoas estariam lá fora, o quarto escuro… Era o medo que nos paralisa diante do abuso. Ele disse que estava tudo bem e que levaria tempo para eu me acostumar. Epstein era assim: gostava de ter que convencer alguém.

Semanas se passaram, e ele quis me ver. Minha mãe já não estava trabalhando, eu precisava ganhar dinheiro. O abuso aconteceu devagar. A cada vez que eu ia, Jeffrey pedia uma coisa nova e me fazia acreditar que eu tinha que estar ali porque era imigrante e tinha que ajudar a família. Ele usava coisas em mim, brinquedos, e me mostrava às outras meninas como um exemplo: “Isso é o que uma boa menina faz, e vocês têm de fazer”, dizia. Eu nem me lembrava disso, sabe? Foi uma outra sobrevivente que me contou. Nas nossas conversas, reconstruímos juntas a memória do que vivemos. É por isso que pedimos ao FBI para nos entregar os nossos arquivos pessoais. Para remendarmos as partes da nossa história que o trauma bloqueou.

Eu não pensava em nada. Apenas ia. Hoje, há quem me pergunte por que eu ia. A minha resposta é sempre a mesma. A pergunta que tem que ser feita é por que um homem de 45 anos faz isso com uma garota de 14?

Epstein me mandava levar mais garotas. Havia muitas de outros países, incluindo do Brasil. Algumas chegavam a Nova York enviadas pelas famílias para alugar um apartamento, estudar e ter um trabalho de meio período. De repente, estavam enviando US$ 500 por semana para casa e ninguém questionava. Preferiam não saber. Ou, na verdade, sabiam. Essas meninas acreditavam que faziam a coisa certa. E isso acontece ainda hoje com outras garotas, em outros lugares.

Eu gostaria que respeitassem as escolhas que essas mulheres tiveram que fazer. Recebo muitos ataques nas redes sociais e, quando falo com plataformas brasileiras, me choca que tantos ataques venham de mulheres. Nós somos abusadas em todos os lugares. Eu me culpo por não ter falado antes porque, talvez, Epstein não tivesse abusado de tantas outras. Havia toda uma rede levando garotas até ele.

As outras brasileiras sobreviventes preferem não falar. A minha família no Brasil preferia que eu não falasse, me alertaram que poderia virar uma coisa política de Bolsonaro contra Lula. Não é possível, sabe? Isso se trata de meninas e mulheres abusadas por homens poderosos que, até hoje, se livraram da Justiça. Imagina quantos são assim também no Brasil?

Acesso ao arquivo

Quando a coisa chega na política, vira um circo. Trump primeiro disse que queria a liberação dos arquivos, depois não queria mais. Agora, ele diz que isso é notícia velha. Não é. Precisamos saber sobre os documentos, questionar por que o nome do presidente aparece neles. Esses são os Estados Unidos em que direitos estão sendo violados, o ICE está nas ruas e tudo leva a um só ponto: Epstein.

O que eu mais desejo é o acesso ao meu arquivo. Não me parece certo que o FBI saiba antes de mim sobre coisas que me aconteceram. Quero que todos os homens mencionados sejam levados à Justiça. E também quero ter a certeza que não há material sendo escondido.

Em 2019, eu parei no hospital. Estava viciada em Xanax, que me foi prescrito aos 16 anos. Estou sóbria há seis ou sete anos e entendi que precisava aceitar o passado. Tenho 37 anos e posso dizer que só me conheci aos 35. Hoje, eu digo à minha filha que é preciso criar os próprios limites e não permitir que ninguém os ultrapasse.

Por isso, quero dizer o seguinte às meninas no Brasil: o silêncio não vai protegê-las, vai apenas machucá-las ainda mais. Eu sei que sentem medo e que podem ser ameaçadas pelos pais, padrastos ou seja lá quem estiver fazendo isso com vocês. Não contem as suas histórias a todo mundo, nem contem todos os detalhes. Falem com uma pessoa com quem se sintam seguras. Ela vai ajudar. Quero que se olhem no espelho todos os dias e digam a si mesmas que merecem mais do que uma vida de abusos. Eu vou continuar falando, não vou me calar.

*Em depoimento à jornalista Renata Izaal

Foto: Arte de Renata Amoedo

D1 com O Globo

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