Venezuela anuncia retomada de contatos diplomáticos diretos com EUA, na prática normalizando relação após captura de Maduro

O governo venezuelano anunciou nesta sexta-feira a retomada de relações diplomáticas com os Estados Unidos, seis dias após os ataques em Caracas e a captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Em comunicado, Caracas reiterou a denúncia de que foi “vítima de uma agressão criminal, ilegítima e ilegal contra seu território e seu povo”. Os Estados Unidos, que não têm embaixador na Venezuela desde 2010, suspenderam as operações na embaixada e retiraram todo o pessoal da embaixada em 2019.

Segundo o anúncio, as autoridades venezuelanas condenam a ação americana e esclarecem que a decisão de restabelecer missões diplomáticas em ambos os países tem o objetivo de abordar as consequências “da agressão e do sequestro do Presidente da República e da Primeira-Dama, bem como de definir uma agenda de trabalho de interesse mútuo”.

“Como reiterou a Presidente Interina Delcy Rodríguez, a Venezuela enfrentará essa agressão por meio de canais diplomáticos, convicta de que a Diplomacia Bolivariana de Paz é o caminho legítimo para defender a soberania, restaurar o direito internacional e preservar a paz”, diz o comunicado.

No documento divulgado hoje, o governo da presidente interina Delcy Rodríguez afirmou ainda que mais de cem pessoas, entre civis e militares, morreram durante a operação do último sábado, no que classificou como “flagrante violação do direito internacional”.

Uma equipe de autoridades americanas chegou a Caracas nesta sexta-feira, enquanto o governo do presidente americano, Donald Trump, avalia a possível reabertura da embaixada dos Estados Unidos na Venezuela, informou mais cedo o Departamento de Estado dos EUA. A equipe incluía diplomatas e pessoal de segurança da Unidade de Assuntos da Venezuela, sediada na Colômbia, incluindo o encarregado de negócios da unidade, John T. McNamara. O objetivo é “realizar uma avaliação inicial para uma possível retomada gradual das operações” no país, disse um porta-voz do departamento.

O governo venezuelano confirmou a chegada da delegação no comunicado e acrescentou que uma equipe diplomática da Venezuela também será enviada em Washington para cumprir tarefas correspondentes em solo americano. Segundo relatos da imprensa colombiana, o principal objetivo da delegação americana é analisar as condições de segurança, infraestrutura e viabilidade para a reabertura da embaixada dos EUA em Caracas.

Uma fonte americana esclareceu à AFP que os Estados Unidos ainda não tomaram uma decisão formal sobre a reabertura da embaixada, mas que estão se preparando para fazê-lo assim que Trump der o sinal verde. Um jornalista da AFP testemunhou um comboio de SUVs saindo da embaixada em Caracas, que foi fechada pouco depois de Washington se recusar a reconhecer a primeira reeleição de Maduro, em 2018.

Esta visita representa a primeira entrada de pessoal diplomático oficial dos EUA em Caracas desde o rompimento de relações, há quase sete anos. Em 12 de março de 2019, os Estados Unidos suspenderam as operações da embaixada em Caracas. Em 28 de agosto do mesmo ano, o Departamento de Estado anunciou a abertura da Unidade de Assuntos da Venezuela, localizada na Embaixada dos EUA em Bogotá, capital da Colômbia.

Várias agências internacionais noticiaram a chegada do avião do Departamento de Estado ao aeroporto de Maiquetía. Até o momento, no entanto, não há expectativa de que sejam realizados encontros entre os diplomatas americanos e membros do governo interino durante esta visita. As discussões sobre reuniões futuras continuam, mas permanecem em fase preliminar.

Chavismo também quer ir a Washington

O jornal espanhol ABC publicou nesta sexta-feira que a líder chavista Delcy Rodríguez solicitou uma viagem a Washington na próxima terça-feira, segundo fontes do governo americano. O pedido já foi recebido por vários escritórios do governo federal americano e está sob análise, ainda sem confirmação oficial de reuniões ou uma decisão fechada sobre sua agenda.

Como Delcy está sujeita a sanções americanas por violações de direitos humanos, qualquer viagem aos EUA exigiria uma licença específica ou uma isenção temporária do Departamento do Tesouro, por meio do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), sem a qual a entrada da presidente interina nos EUA seria impossível. Fontes enfatizaram ao periódico espanhol que a abertura do processo de análise não implica aprovação automática. Em casos semelhantes, Washington avaliou não apenas os aspectos legais, mas também o contexto político, a conjuntura diplomática e as implicações internas de autorizar ou negar a visita, esclareceu.

De acordo com as mesmas fontes, Delcy espera ser recebida tanto na Casa Branca quanto pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo elas, a líder chavista teria usado as condições exigidas por Rubio nos últimos dias — cooperação em matéria migratória, sinais de abertura política e compromissos verificáveis no âmbito institucional, além da entrega do setor do petróleo — como base para efetuar o pedido. Apesar disso, o governo americano não ofereceu garantias de interlocução a Delcy.

A notícia foi divulgada um dia após Trump indicar que se reunirá com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, na próxima semana na capital americana, após escanteá-la de uma eventual transição ao poder a partir da prisão de Maduro pelos. María Corina tentou se aproximar de Trump e, no início desta semana, ofereceu-lhe o Prêmio Nobel da Paz que recebeu no ano passado, algo que o republicano ambiciona há muito tempo. Se ambas as agendas forem confirmadas, Delcy e María Corina estariam na capital americana ao mesmo tempo, um fato sem precedentes recentes e politicamente sensível.

Foto: Juan Barreto / AFP

D1 com O Globo

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