Governo busca se afastar da crise do Master e evitar CPI em ano de eleição

Preocupado com a escalada da crise do Banco Master, o Palácio do Planalto tentará se apoiar no discurso de que apoia as investigações e buscará colar os desdobramentos do caso na oposição. Às vésperas da campanha eleitoral, porém, o Executivo não pretende que uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre o caso prospere no Congresso para evitar que o caso interfira no andamento das pautas de interesse da gestão Lula na Câmara e no Senado e contamine o ambiente político em Brasília.

A irritação do presidente com o tema ficou clara em discurso na semana passada, e o assunto passou a ser foco de preocupação digital do governo. Nas redes sociais, o tema tem impactado mais diretamente o presidente nesta semana, de acordo com levantamento da consultoria Bites feito a pedido do GLOBO.

A volta ao noticiário do encontro entre Lula e o dono do banco Master, Daniel Vorcaro, ocorrida em dezembro de 2024, e a confirmação de que o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski prestou consultoria jurídica ao Banco Master por indicação do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), aproximaram o Palácio do Planalto dos ecos das investigações.

Menções nas redes

Nos últimos 90 dias, foram publicadas 8,04 milhões de menções ao Master, a Daniel Vorcaro, ao ministro Dias Toffoli ou assuntos relacionados à liquidação do banco, com 79 milhões de interações.

O levantamento aponta que o presidente tem sido impactado diretamente nos últimos dois dias por causa das menções a Lewandowski, Wagner e ao ex-ministro Guido Mantega, que levou Vorcaro ao encontro de Lula em 2024 — conversa revelada pelo colunista do GLOBO Lauro Jardim no ano passado.

As citações ao presidente ganharam tração a partir do último sábado e já somam 6,46 milhões de interações. Um dos principais expoentes da direita nas redes sociais, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, tem criticado o que considera falta de apoio do PT a uma CPI.

Daniel Vorcaro é dono do Banco Master

Mesmo sem apoiar a CPI, aliados de Lula no Congresso dizem que, com a volta dos trabalhos legislativos, a ideia é fazer uma defesa do governo e reforçar o papel da Polícia Federal e do Banco Central no processo — o argumento de que essas instituições já estão atuando no caso será usado contra a Comissão Parlamentar de Inquérito.

Com as repercussões da crise, na semana passada, Lula subiu o tom e, sem citar diretamente o proprietário Daniel Vorcaro, afirmou em discurso que o “cidadão do Banco Master” deu um golpe de R$ 40 bilhões e que a conta ficará para as demais instituições bancárias:

— Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto um cidadão do Banco Master deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões. E quem vai pagar são os bancos.

Comissão de ética

Nesta semana, o tema chegou mais próximo do governo com as revelações envolvendo Jaques Wagner e o ex-ministro da Justiça. O senador disse ontem que a indicação de Lewandowski foi feita após pedido do empresário baiano Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro no Master.

— Quando eu me encontrei com Guga (Augusto Lima), ele disse que queria melhorar o nível do banco e precisava indicar um jurista para o conselho administrativo do banco — afirmou o senador à Rádio Baiana.

O ex-ministro da Justiça, por sua vez, reiterou que depois de deixar o Supremo, em abril de 2023, retomou a advocacia e, além de vários outros clientes, prestou serviços de consultoria jurídica ao Banco Master. Ele afirmou que, ao ser convidado para a pasta, retirou-se de seu escritório de advocacia.

Ontem, a comissão de ética da Presidência autorizou que ele volte a exercer a advocacia sem a necessidade de cumprir quarentena, mas decidiu vedar a atuação por seis meses em órgãos ligados à pasta.

Augusto Lima tem relação com políticos da Bahia, entre eles expoentes do PT, com Wagner e o ministro da Casa Civil, Rui Costa. Lima entrou no setor financeiro em 2018, quando Costa (então governador) decidiu privatizar uma estatal de supermercados.

A parte financeira da operação acabou ficando com o executivo, que então criou o CredCesta, um cartão de crédito consignado. Foi essa operação que o levou ao Master. Procurado, o ministro não se manifestou.

O governo, no entanto, tenta minimizar os impactos da crise na gestão petista e na imagem de Lula. O principal argumento de auxiliares é de que o presidente esteve com Vorcaro em 4 de dezembro de 2024, antes de a fraude financeira vir à tona e se tornar um escândalo.

A reportagem questionou a Secretaria de Comunicação Social da Presidência sobre o motivo pelo qual o encontro com o dono do Master não constou da agenda do presidente e os temas tratados na conversa, mas não teve resposta.

Sobre o ex-ministro da Justiça, o argumento de auxiliar com assento no Planalto é que Lula não sabia da existência do contrato de Lewandowski e descartou que a saída dele do governo no início deste mês tenha relação com o caso Master.

A avaliação de parte dos aliados do governo, por outro lado, é que o caso Master pode fazer com que a corrupção seja um dos temas da eleição. Se isso acontecer, um auxiliar de Lula diz que o governo deve enfatizar que foi o Banco Central, comandado por Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente da República, que liquidou o Master, e é a Polícia Federal que realiza as investigações.

Como mostrou O GLOBO, Lula se movimentou nos bastidores para dar apoio a Gabriel Galípolo, o chefe da autoridade monetária que está diretamente atuando na defesa do processo que culminou no encerramento das atividades do banco.

As atuações do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal de Contas da União no caso foram mencionadas como alvo de desconforto na reunião realizada no Palácio do Planalto para discutir segurança pública, no início do mês, como mostrou o colunista do GLOBO Fabio Graner.

A estratégia do governo também prevê apontar para a oposição. Integrantes do governo pretendem destacar que as relações de aliados do Planalto com o banco seriam pequenas perto das conexões que envolvem políticos oposicionistas.

Nesse caso, citam como exemplos o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, que em 2024 propôs aumentar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Também mencionam o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, responsável pelo BRB.

Procurados, Nogueira e Ibaneis não comentaram. O governador do DF nega irregularidades na compra do banco.

Antes da liquidação, Vorcaro se valia de uma rede de contatos políticos e dizia a pessoas próximas que havia feito “fortes amigos” em Brasília.

Foto: Reprodução / TV Globo

D1 com O Globo

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